Estamos em Páscoa.
Neste tempo central do ano litúrgico, o Luiza Andaluz Centro de Conhecimento propõe um olhar atento sobre três peças – na Casa Madre Luiza Andaluz, no 100 e no Convento das Capuchas – que nos transportam para a luz, a vida plena, a paz e a alegria deste tempo que flui até ao pentecostes, 50 dias depois da ressurreição.
Um apontamento. Uma presença. Uma obra que nos ajuda a ler, com maior profundidade, o tempo que estamos a viver. Um espaço para a contemplação através do belo de cada peça:
Com os braços acolhedores e interpelantes de Jesus, o Vivente, vitorioso sobre a cruz;
Na luz pascal que torna toda a escuridão da noite, clara como a luz;
Na profusão da alegria e da paz do Espírito do Ressuscitado, num envio renovado.
Um convite para aprofundar a fé.
Cristo Ressuscitado
Casa Madre Luiza Andaluz, Santarém
Escultura adquirida no Brasil
Século XX
Nesta escultura de madeira policromada, colocada sobre a cruz aberta na parede do presbitério da capela, encontramos a representação de Cristo Ressuscitado. Os seus dois braços abertos, o seu tronco despido e as suas mãos e pés perfurados reportam-nos para o ponto culminante do seu abaixamento na cruz. Mas o panejamento branco, levemente esvoaçante que envolve o seu corpo, o seu rosto erguido e o seu olhar sereno, luminoso e confiante dizem-nos da sua vitória sobre toda a morte. Trata-se de Cristo crucificado, agora ressuscitado.
O espaço amplo e luminoso em que se encontra esta escultura prolonga o gesto dos seus braços estendidos, que parecem convidar quem entra à confiança nele, a entrar no seu caminho de vida nova e plena. Afinal, Ele é o ‘bom pastor’ que dá a vida pelas ovelhas, cuida delas e condu-las à alegria.
Castiçais/Candeia
Convento das Capuchas, Santarém
Materiais vários (metal e madeira; barro; cera)
Séculos XIX-XX
Casa Madre Luiza Andaluz e Convento das Capuchas
Junto ao altar, o castiçal suporta uma vela. A vela, elemento que tem lugar comum na ação litúrgica, remete para a luz, e esta por sua vez para o Mistério Pascal. A luz é o elemento plástico que desde, muito cedo no cristianismo, serviu para dizer o mistério de Deus e a vida eterna nele: «Deus é luz e nele não há trevas» (1 Jo 1,5). A Páscoa da ressurreição de Cristo – que a celebração da Eucaristia celebra – é, com efeito, uma passagem das trevas para a luz, da morte para a vida, uma vez que a vida nova do Ressuscitado diz da vitória de Deus sobre a morte. É neste mistério que se funda a fé cristã, e por essa razão, também ela encontra na luz, e concretamente, na luz frágil de uma vela acesa, a sua representação plástica. Tal como a vela ilumina, mas precisa de ser cuidada, também o dom da fé ateado pelo Espírito Santo no coração do crente, precisa de ser constantemente nutrida e torna-se testemunha do mistério de Cristo vivo para outros.
Este simbolismo pascal está também presente na candeia que serve de emblema às Servas de Nossa Senhora de Fátima. Assim escreveu a sua fundadora, Luiza Andaluz: «Temos por emblema uma candeia acesa, que a nossa vida seja na verdade luz e chama ardente de Amor.» (Pensamento 400). A candeia é composta por um recipiente de barro ou metal, contendo o líquido que alimenta a combustão de um pavio. A sua forma permite transportar a luz para diferentes espaços da casa. A candeia de chama acesa simboliza, com efeito, a luz da fé que permite ver as necessidades dos outros, que desperta para o cuidado e se faz testemunha do amor de Deus que vence a tristeza e a morte.
Renovatus pentecostes
100, Rua da Escola Politécnica, Lisboa
Acrílico e colagem sobre tela
59,5 alt. x 39,5 l.
Sandra Bartolomeu, snsf
Contam-se treze os vultos femininos que se perfilam, lembrando uma procissão ou uma peregrinação. Conforme se aproximam do primeiro plano, os traços dos seus rostos ganham definição – saem da sombra para a luz. Foi na sombra, escondidas no anonimato, que no dia 13 de maio de 1923, doze mulheres rumaram com Luiza Andaluz à Cova da Iria, integradas na peregrinação das Filhas de Maria, para confiarem à Virgem Maria, aí aparecida, o grupo que nem nome ainda tinha.
Um outro vulto, cujos contornos se difundem, envolve estas mulheres: é um vulto de luz branca e quente, o da Mãe de Jesus, a «Senhora mais brilhante que o sol», vestida da luz da Páscoa. Ela é a «cheia de graça» (Lc 1,28), a cheia da luz da ressurreição de seu Filho. Assim a contemplaram os Pastorinhos na sua primeira aparição, anos antes, ali, no dia 13 de maio de 1917. Era então domingo, dia de Páscoa. E ela envolveu-os na luz da Páscoa, na luz de Cristo Ressuscitado e da força do Espírito Santo.
Ao rumar a esse lugar, as treze que haveriam de dar início à congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima experimentaram aquilo que o Papa Bento XVI designou como «um renovado Pentecostes», o dom do Espírito Santo, que desce sobre a assembleia que se reúne em oração com Maria, como no início da Igreja. Ela intercede pelos filhos que peregrinam; no seu cuidado materno eles aprendem o caminho para acolher o dom do Deus que cuida e regenera, e para serem, por sua vez, instrumento de cuidado divino na vida de outros.


