Nos tempos fortes do ano litúrgico, o Luiza Andaluz Centro de Conhecimento propõe um olhar atento sobre uma peça em cada uma das suas casas. Um apontamento. Uma presença. Uma obra que nos ajuda a ler, com maior profundidade, o tempo que estamos a viver.
Nesta Quaresma, nas três casas – Casa Madre Luiza Andaluz, 100 e Convento das Capuchas – encontramos representações da Pietà e da Via-Sacra. Estas imagens colocam-nos diante da Paixão de Cristo e do sofrimento humano, não como fim, mas como caminho de cuidado e de transformação, num tempo de preparação para a Páscoa.
Cria-se espaço para a contemplação, neste gesto de expor a arte, através do belo de cada peça:
o acolhimento de Maria com o seu Filho morto nos braços;
o cuidado como presença solidária nos momentos de fragilidade;
a transformação que permite que o amor vivido na entrega renove o nosso modo de viver.
Um convite para aprofundar a fé.
Pietá lux
100, Rua da Escola Politécnica, Lisboa
Óleo sobre tela
120 x 80 cm
Sandra Bartolomeu, snsf
2006
Um conjunto de manchas de cor desenham dois corpos: um tronco debruçado, um braço que envolve, um rosto… Não há contornos precisos. A penumbra envolve toda a composição, dotando-a de uma densidade dramática. Mas há uma luz, um pequeno foco, cuja fonte é exterior à composição, que dissipa a escuridão e resgata um detalhe do rosto do frágil, e deixa vislumbrar o gesto terno e compassivo.
Pietà é, na linguagem da arte, o nome pelo qual é conhecida a composição que apresenta a mulher a segurar o filho morto nos braços: a Virgem Maria que segura Cristo. Ela é, desde tempos medievais, uma referência plástica e emocional importante do Cristianismo.
Na presente obra, não há uma mãe; mas, na figura maior, identificamos o mesmo cuidado maternal, as entranhas que se revolvem para dar vida, para estimar o corpo, a integridade de um outro com um respeito sacral; um alguém que, debruçando-se, dá a sua vida para dar vida ao outro prestes a apagar-se.
A quarentena que antecede a celebração da Páscoa de Cristo, bem pode ser esta via-sacra da configuração com o Cuidador e Reparador da fragilidade humana, em todas as suas formas. Esta é a mais bela forma da divinização do homem.
Pietá Africana
Casa Madre Luiza Andaluz, Santarém
Escultura em Madeira/Mpingo
11,20 x 36,00 x 8,50 cm
Século XX
Escultura de vulto pleno, produzida em África com mpingo, conhecido por pau preto. Esta peça representa a Pietà – do italiano “Piedade”. A composição apresenta duas figuras: uma sustenta a outra nos braços, evocando a imagem da Virgem Maria com o corpo morto de Jesus nos braços, logo após a crucificação. Neste gesto silencioso, concentra-se toda a dor da Mãe que perde o Filho, mas também a profundidade do amor que permanece mesmo diante do sofrimento e da morte.
Via Sacra
Convento das Capuchas, Santarém
66,00 cm x 45,70 cm x 1,9 cm
Início do Século XX
Estas gravuras emolduradas da via sacra foram produzidas por Turgis Fils, editores pontifícios, em Paris, entre 1893 e o início do século XX. Cada gravura representa uma das 14 estações do caminho de Jesus Cristo desde a condenação até ao sepulcro.
Os momentos apresentados são:
I Jesus é condenado à morte;
II Jesus carrega a cruz às costas;
III Jesus cai a primeira vez;
IV Jesus encontra a sua mãe;
V Jesus é ajudado por Simão de Cirene;
VI Jesus encontra Santa Verónica;
VII Jesus cai a segunda vez;
VIII Jesus consola as filhas de Jerusalém;
IX Jesus cai a terceira vez;
X Jesus é despojado das suas vestes;
XI Jesus é atado à cruz;
XII Morte de Jesus na cruz;
XIII Descida da cruz;
XIV Jesus é depositado no túmulo.
Cada estação demonstra situações que continuam a marcar o nosso tempo: condenações precipitadas, solidões carregadas, corpos exaustos, pequenas coragens anónimas. Percorrer este caminho é aceitar olhar de frente a fragilidade – e descobrir que, mesmo aí, a dignidade não é anulada.
No meio da dureza do percurso, permanecem gestos de presença e de cuidado. Talvez seja aí que começa a transformação.


